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Um pouco de História

Povoamento e organização do território

147O primeiro local de povoamento da ilha do Pico foi junto ao Penedo Negro, na enseada do Castelete, ao Sul da actual vila das Lajes, um pouco antes de 1460. A violência do mar permitiu apenas que pusesse pé em terra firme o navegador Fernando Álvares Evangelho. Nas novas terras ele e o seu cão viveram cerca de um ano, junto da Ribeira, à saída da vila – durante muitos anos conhecida por Ribeira Fernando Álvares (ainda hoje se conservam as ruínas da casa que então lá construiu).

Quando os companheiros de Fernando Álvares regressaram ao Pico, desembarcaram em Santa Cruz das Ribeiras. Alguns ficaram por aqui, como Jordão Álvares Caralta. Outros no sítio da Maré, junto ao local do primeiro desembarque. Além das suas habitações, edificaram ali a Ermida de S. Pedro (ainda existente), onde foi pároco da ilha, o primeiro, Frei Pedro Gigante (considerado por alguns historiadores o introdutor da casta Verdelho).

Álvaro de Ornelas foi o primeiro Capitão-Donatário nomeado para a ilha do Pico mas nunca chegou a tomar posse. Jôs d'Utra (Jobst de Van Huertere, de origem flamenga) já Capitão-Donatário do Faial, tomou a seu cargo em 1482 a Capitania do Pico.

A Vila das Lajes, tal como acontece com outras vilas do Arquipélago dos Açores, não tem foral. Em 1500, terá a primeira câmara das Lajes tido já uma vereação de "homens bons". Por um alvará de 14 de Maio de 1501, o Capitão Jôs d'Utra conferiu poder e autoridade a Fernando Álvares para dar licenças diversas aos povoadores. Lajes foi o primeiro concelho da do Pico e até 1542 foi-o de toda a ilha (a casa da câmara, situada na praça que hoje tem a igreja Matriz, já existia em 1503). Um cálculo realizado por Lacerda Machado a partir do Espelho Cristalino aponta para 250 habitantes na ilha em 1506. A vida e os modos de a organizar corriam o seu normal curso na segunda maior ilha do arquipélago.

Em 1540, o concelho das Lajes (toda a ilha) contava já com as freguesias de Santa Bárbara (Ribeiras), Santíssima Trindade (Lajes), São Mateus, Santa Maria Madalena, São Roque e Nossa Senhora da Ajuda.

Em 1542, foi criado por D. João III o Concelho de Vila Nova de São Roque, com as freguesias de São Roque (sede), Nossa Senhora da Ajuda e Madalena. Em princípios de 1543 procedeu-se à eleição da câmara do novo município.

Em 8 de Março de 1723 criou-se o Concelho da Madalena, com as freguesias de Madalena (Vila), Bandeiras, e São Mateus. Extinto em 1895, foi restaurado por Decreto de 13 de Janeiro de 1898.

A partir de então o Concelho das Lajes do Pico ficou constituído pelas freguesias de São João, Lajes do Pico (Santíssima Trindade), Calheta de Nesquim e Piedade. Em 1980, por Decreto da Assembleia Regional, nº 24/80/A, de 15 de Setembro, foi criada a freguesia da Ribeirinha, desanexando-se o respectivo território da freguesia da Piedade.

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Desenvolvimento: a terra e o mar


145«Já quando os homens chegaram pela primeira vez à Ilha, a encontraram rasa de pedra, que fora fogo vomitado pelos vulcões: pedras colossais, amontoadas a esmo, à semelhança das que se vêem soltas por cima dos calhaus e dos penhascos da costa (...). – Mas os desgraçados ergueram a fronte. Eram homens (...). Estarraçaram, escavacaram, removeram pedra, abriram caminhos – e a terra começou a surgir!»

(Dias de Melo, Pedras negras (romance), 1964 (edição de 2003, pg. 29)

Nos primeiros tempos do povoamento a actividade económica baseou-se na cultura do trigo e do pastel (planta tintureira). Ainda no século XVI começa a ganhar relevo a cultura da vinha, em particular de casta verdelho, beneficiada pelos solos de origem vulcânica e pelas condições climatéricas. Durante séculos a produção vitivinícola domina outros recursos da terra e do mar. O verdelho do Pico durante mais de 2 centenas de anos teve fama internacional, nomeadamente, Inglaterra, Américas e Rússia, onde terá chegado à mesa dos czares. Em meados do século XIX o ataque do oídio destruiu as vinhas e originou o seu progressivo declínio. A aprovação pela UNESCO, em Julho de 2004, da Paisagem Protegida de Interesse Regional da Cultura da Vinha da Ilha do Pico (criada em 1996), como Património Mundial da Humanidade, permitirá, entre outras coisas, proteger o importante património e dinamizar acções que impeçam o desaparecimento deste cultivo único no mundo.

«Ali, nas chãs de beira-mar, quase nem existia amostra de terra. Experimentaram meter a vinha por entre o burgalhau, nos interstícios das lajes e dos moledos. Se a camada pedregosa engrossava demasiado, escavavam buracos de quinze a vinte palmos de fundo por sete a dez de boca – e lá muito em baixo plantavam a videira.»

(Dias de Melo, Pedras negras (romance), 1964 (edição de 2003, pg. 30)


120No século XVIII, duas ordens de factos tiveram uma profunda influência na vida dos picoenses, em particular nos das Lajes: catástrofes naturais (erupções vulcânicas, sismos e ciclones) destruíram terras e colheitas e em boa medida foram a principal razão de muitos homens procurarem outras formas de sustento em terras americanas; a intensificação da caça à baleia, provocada tanto pelos emigrantes de retorno dos EUA, como da afluência das embarcações baleeiras americanas às águas açorianas.

Na erupção do Pico dos Cavaleiros, em 1562, a lava esventrou a terra e dessa cesariana nasceu o "mistério" da Prainha. Solos de biscoito encarniçado onde farão a pulso despontar as vides ou estranhas árvores anãs, torcidas como anomalias japonesas. [...] Em 1718 outra erupção brutal varre searas, sufoca animais, aterroriza gente, as bocas de fogo abrem da terra e saem do mar arranques de lava. Depois, arrefeceu nos "mistérios" de S. João, Bandeiras e Santa Luzia. Em 1720 nova calamidade, de Julho até Dezembro escorreram sempre cinco cadeias ígneas até ao mar, solidificando outro "mistério", o da Silveira. No chão, urzela, manto da terra ardida e lava solta. Conta-se que nesta deslocação costa a costa uma faixa permaneceu virgem. Um boi pastou até petrificar a lava, prometido ao Espírito Santo, os elementos respeitaram o que seria mais tarde sopa sagrada de pobres e vizinhos. Agora parece tudo apaziguado.

Fátima Maldonado, Lava de Espera (1996, pgs. 17-8)

No século XVI as populações açorianas terão aprendido com os biscainhos o ofício da caça à baleia. A meio do século XIX, tudo se propiciou para a sua intensificação. A terra das Lajes do Pico foi testemunha e protagonista desta saga de séculos. Foi e sempre será a Terra Baleeira.

«Um número razoável destes baleeiros provém dos Açores, onde os navios de Nantucket frequentemente fazem escala para aumentar a sua tripulação com os robustos camponeses destas costas rochosas. (...). Não se consegue explicar porquê, mas é dos ilhéus que saem os melhores caçadores de baleias.»

(Herman Melville, Moby Dick (romance), 1851 (edição de 2004, pg. 174)

Saga baleeira


baleia-na-rampaA caça à baleia (designação genérica para as várias espécies de grandes cetáceos que passam na costa) mobilizou nas Lajes do Pico, sobretudo nos cem anos anteriores à década de oitenta do século XX, grande parte da população. Os tripulantes dos botes baleeiros, as "companhas", e, mais tarde, dos "gasolinas" (pequenas embarcações rebocadoras dos botes), eram homens com outras profissões, muitos deles com ocupações agrícolas. Com as suas "soldadas" anuais, depois de vendido o óleo nos mercados nacionais e internacionais pelos armadores (sociedades baleeiras), alimentavam famílias muitas vezes numerosas. A dureza e perigosidade desta actividade faziam quase sempre parelha com situações de pobreza ou pelo menos de extremas dificuldades financeiras.

«E aquela alegria durava... era uma adoração, porque estavam milhares e milhares de bocas à espera daquela baleia.

... Se era sociedade pois mais bocas comiam... esperavam, as crianças, as mães, as velhas; esperavam as pessoas para comer aquele magro daquela baleia. Isto ainda foi com muita sorte, muita sorte, que tivemos aqui... com mares bravios, noites tempestuosas, aqueles "urros" do mar a meterem medo... e o homem agarrado à baleia não a querendo deixar porque ali vinha a subsistência ou a alimentação dum povo.»

Manuel Costa, baleeiro, entrevista a Sidónio Bettencourt (CD ROM Baleeiros em terra)

A dureza da faina alimentou inumeráveis histórias, tornou-se símbolo de identidade de uma comunidade que ainda hoje sabe mostrar o orgulho neste seu passado recente e naqueles que foram os seus heróis – míticos ou reais.


cortebaleia2«Até tranquei... fui o único que trancou aqui uma baleia Humpbacked ["Ampebeque" ou Baleia de Bossas]. São trinta metros de comprido... Os cachalotes que a gente apanha aqui tinham vinte metros. Hoje elas regulam mais ou menos dezasseis a dezoito metros. O máximo que já se apanhou foi de vinte metros. Mas o Humpbacked vai a trinta e tal metros de comprimento e eu... tranquei um. E o Manuel Garcia até disse: "Oh homem, este está despachado" que eu fui atrás do Humpbacked por água abaixo. Depois eles cortaram a linha... e eu disse a eles quando saí fora d'água... (bem eu sabia que vinha para cima) quando cheguei acima de água mandei botar um remo ao mar e disse a eles que me cortassem a linha... pois a lancha que me vinha salvar ia-me matando, botaram-me as mãos aos pés e levaram-me de arrasto pelos pés que queria tomar ar e não podia...

E já cheguei aqui terra, já cheguei aqui a terra e eles estarem a gritar aqui em terra dizendo que tinha ficado lá fora... que tinha morrido e eu estava dentro do bote... Eu estava ouvindo os gritos aqui em terra e eu estava dentro do bote.

Eu pus-me em pé e disse: oh homens vocês estão a gritar por quem? Eu estou vivo aqui. Não morri...»

João Lelé, entrevista a Sidónio Bettencourt (CD ROM Baleeiros em terra)

Depois de capturados, os grandes cetáceos eram objecto de transformação, por processos de natureza artesanal, sobretudo para a extracção do seu óleo. Até cerca de 1930, a extracção do "azeite de baleia" era feito pelos próprios baleeiros, por um processo denominado "a fogo directo", em típicos "traióis" (dois caldeiros adossados e assentes sobre uma fornalha).

Este penoso trabalho foi a pouco e pouco maioritariamente substituído por fábricas de derretimento (em autoclaves a vapor de grande capacidade). Em meados do século XX, a industrialização deste processo contribuiu significativamente para o desenvolvimento económico da vila das Lajes. Aqui se constituiu em 1948 a Sociedade de Indústria Baleeira Insular, Lda. – SIBIL, a partir da reunião de 10 sociedades baleeiras (3 sediadas em Santa Cruz das Ribeiras e 7 nas Lajes). Iniciou a sua laboração em Junho de 1955, exportando um pouco para todo o mundo óleos, farinhas e o valioso âmbar. A Fábrica da Baleia, como ainda hoje é conhecida, encerrou a sua actividade no início dos anos oitenta – depois de vicissitudes várias, a que não foram alheias a desfavorável conjuntura económica mundial e as pressões das organizações ecologistas. No fim da década foi adquirida pela Câmara Municipal das Lajes do Pico. Hoje, está a ser restaurada para abrigar um núcleo museológico e um centro cultural.

Património baleeiro

Em 1984 terminou nos Açores o ciclo da caça à baleia. Mas em 1987, nas imediações da Ilha do Pico, apanhou-se a última baleia com lança e arpão como nos idos de 1850. Hoje, constitui um valioso património – testemunho do passado e estímulo para o futuro.

No concelho das Lajes, as baleias continuaram presentes em inúmeros elementos da vida material e espiritual dos lajenses. No porto, como que a desafiar o mar, uma escultura monumental de Pedro Cabrita Reis homenageia a memória dos baleeiros. Quase em frente ao monumento aos baleeiros, o Museu dos Baleeiros, instalado em antigas casas de botes baleeiros, um dos mais importantes testemunhos da cultura material baleeira. Todo o concelho é como um museu, aliás: vigias de baleias no Arrife (Ribeiras), Queimada (Lajes do Pico) e (Calheta de Nesquim, botes, lanchas e casas de botes (Lajes do Pico e Calheta de Nesquim), estão um pouco por todo o lado. O "traiol" em frente à rua da Pesqueira na Vila. A Fábrica da Baleia (em recuperação). Como a arquitectura de "torres" ou "torrinhas" de madeira e outros elementos característicos, em especial na sede do concelho. Uma das mais valiosas formas de arte popular ligada à baleação é a actividade de "scrimshaw" – gravação artesanal em osso ou dente de cetáceo. Os antigos botes baleeiros foram objecto de recuperação, nuns casos, noutros de replicação de originais.

Além do seu significado simbólico, são usados ainda em brilhantes regatas em toda a ilha, ocupando os meses de Junho a Setembro de cada ano.

A crescente actividade turística tem na observação de baleias (e toninhas e golfinhos) o motivo principal.

E todos os anos, a grande Semana dos Baleeiros termina no domingo com a Procissão de Senhora de Lourdes: padroeira dos baleeiros desde que em finais de 1882 a Santa salvou vários baleeiros que no meio de uma grande tempestade tentavam entrar no porto das Lajes do Pico. O fim da procissão é marcado com o Sermão da Pesqueira e o Ritual Baleeiro, forma ritualizada da devoção dos "velhos lobos-do-mar" à Santa que os protege – ainda.

Caça à Baleia

Homens em terra, com binóculos, ocupam-se das vigias em busca de baleias no horizonte. Uma vigia construída em quadrado na beira de uma ravina, de onde se vislumbra o mar numa grande amplitude. Por vezes, os vigias espreitam dias e dias sem se vislumbrar qualquer animal.

Muitos homens do campo dedicam-se às suas tarefas. Aguardam o sinal que poderá tornar as suas vidas melhores – numa economia agro-pecuária muito débil. A passagem dos cachalotes pode ser muitas vezes demorada. Um dia, o vigia dava o sinal – com um búzio ou com um foguete que estala no ar. A corrida para o calhau é espavorida, atropelada, muitos deixam a meio os seus afazeres no campo ou na vila. Mal há tempo para uma breve despedida das mulheres e filhos e um mal amanhado sinal da cruz ao passar em frente à igreja. Os mais velhos ficam de olhos fixos no mar para observarem os esguichos das baleias a resfolgar. Os miúdos acompanham os pais até à praia. As mulheres, porém, continuam na vida do campo ou da casa, de corações inquietos. Na sua memória, casos de um ou outro desastre, de um ou outro morto. Alguns dos homens nem levam de casa um pouco de pão, seguem para a dura faina do mar de estômagos vazios.

Arreados os botes, até os cães ficam na praia a ladrar. O esforço dos homens no mar é dobrado daquele que fazem na labuta da terra. Os botes, depois de ultrapassarem as ondas da costa, começam a deslizar. A sua velocidade só pode ser símbolo de uma boa jornada. Contudo, as baleias mudam de rumo e o vigia retira a bandeira. Os botes põem-se a fazer um círculo, até que o vigia hasteie novamente a bandeira. Estão no rumo certo – e avançam.

As baleias, lá bem longe, flutuam segundos e mergulham naquele mar bonançoso, mas que, de um momento para o outro, pode pôr-se rijo. Os botes continuam a deslizar com velocidade. O objectivo é aproximar-se da baleia, sem ruído. O trancador (arpoador) de pé, com os pés bem firmes, vai à proa de arpão em punho. Porém, quem dá as ordens é o mestre. Numa posição firme e de arremesso, o trancador observa o alvo, à espera de atingir a baleia num sítio crucial. O animal depois de arpoado deve sangrar bem.

Está tudo calado e ansioso, ninguém diz palavra inútil: homens, barco, arpoador e arpão, tudo tem o mesmo corpo e a mesma alma. São sete, à caça do monstro. Todos ganham: uma baleia dá muito óleo e o óleo dá muito dinheiro. Às vezes dá âmbar. Já outras canoas de aproximam. Mas, antes que lhe tirem a baleia, o trancador lança o ferro. O bicho tem um momento de hesitação e surpresa, como o touro quando lhe cravam a bandarilhas, o que permite ao barco desviar-se numa remada, antes de ser abafado na cauda ou envolvido no redemoinho das ondas. Não há um segundo de dúvida ou movimento falso. A baleia mergulha entre as vagas, com o risco de os arrastar para o fundo, e leva-os numa velocidade de expresso, pelo mar fora, porque aquela grande massa é de uma agilidade espantosa. E lá vão no curso entre as águas rasgadas, no grande sulco aberto com violência tomando tento na linha. A baleia mergulha. Corre agora linha de manilha americana, muito bem enrolada dentro de duas selhas, e os homens pálidos e imóveis, com o coração do tamanho de uma pulga, esperam. A baleia pode desaparecer durante vinte minutos. Às vezes a linha acaba-se quando a baleia mete muito para o fundo. Se está outro barco perto, fornece-lhe mais linha, senão a baleia perde-se: têm de cortar a manilha ou são arrastados para o abismo. A arça é o fim da linha, e é com pena que eles a vêm acabar-se. Passam a ponta de mão em mão, até ao último tripulante, que só larga com desespero. Mas em geral a baleia mergulha, vem à tona antes que se acabe a linha, e o que ela mostra primeiro é o focinho, para resfolgar. Aproxima-se e dão-lhe uma lançada ao pé da asa para a sangrarem. Mergulha, reaparece, esgotam-na e têm-na certa quando começa a esguichar sangue pelas ventas.

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